
As tendências do mercado de trabalho para os próximos anos
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Em muitas empresas, o problema não está na falta de esforço da equipe. As pessoas trabalham muito, passam o dia resolvendo urgências e, ainda assim, terminam a semana com a sensação de que os mesmos problemas continuam aparecendo.
Isso acontece, muitas vezes, porque a rotina depende de processos pouco claros, que mudam conforme a pressão do dia. Quando a operação funciona dessa forma, os indicadores deixam de orientar as decisões e a liderança passa a agir quando o problema já está instalado.
A gestão por processos ajuda a mudar esse cenário porque permite enxergar como o trabalho acontece, onde a rotina perde eficiência e quais pontos precisam ser medidos antes que a empresa tome uma decisão. Em ambientes voláteis, esse olhar se torna ainda mais importante, já que o mercado muda rápido e exige respostas que não podem depender apenas de tentativa e erro.
Esse foi o tema do episódio 8 do podcast Conexão Pós, mediado por Alexandre Iwankio, diretor da Pós-graduação da FAE, com a participação de Roberto Staudacher, professor, administrador e especialista em gestão empresarial, e Gilson Souza, coordenador da Pós-graduação em Gestão Estratégica de Operações e Supply Chain Management da FAE. Ao longo da conversa, os convidados discutem como processos, indicadores, métodos de melhoria e transformação digital ajudam empresas a lidar com mudanças sem perder o controle da operação.
Gestão por processos é uma forma de organizar o trabalho a partir dos fluxos que fazem a empresa funcionar. Em vez de observar apenas áreas isoladas, ela analisa como as atividades se conectam até chegar ao resultado esperado.
Toda empresa funciona por processos, mesmo quando eles não estão formalizados. Um pedido que entra no atendimento, por exemplo, percorre etapas até ser resolvido. Uma entrega que sai da operação também depende de atividades anteriores, que envolvem pessoas, sistemas, informações e decisões.
Quando esses fluxos não são mapeados, a empresa passa a depender da memória de quem executa, de controles paralelos e de ajustes feitos no improviso. Com isso, o conhecimento fica disperso, e a rotina se torna vulnerável a mudanças de equipe, aumento de demanda ou troca de liderança.
A gestão por processos busca justamente tornar esse funcionamento mais visível. Ao entender como o trabalho acontece, a empresa consegue identificar gargalos, acompanhar indicadores e corrigir desvios com mais critério.
Ambientes voláteis exigem decisões rápidas, mas rapidez sem método pode gerar mais retrabalho. Quando o mercado muda, a empresa precisa reagir, porém essa reação deve partir de uma leitura clara da operação.
No podcast, Alexandre Iwankio resume essa necessidade ao relacionar mudança de estratégia, rotina e indicadores:
“Com a velocidade das decisões e das mudanças de estratégia nas organizações, nada é mais importante do que ter processos bem estabelecidos e indicadores de desempenho bem desenhados”.
Essa fala ajuda a entender por que a gestão por processos deixou de ser vista apenas como uma prática ligada à qualidade. Em um cenário instável, ela se torna uma forma de proteger a rotina da empresa, permitindo que a liderança saiba onde agir e que tipo de resposta precisa ser dada.
Quando os processos estão claros, a empresa entende o que está sob seu controle, acompanha sinais de desvio e evita que cada mudança do mercado provoque uma sequência de decisões desconectadas. Assim, a reação deixa de depender apenas da urgência e passa a considerar o funcionamento real da operação.
Um indicador não deve ser apenas um número apresentado em uma reunião. Para orientar decisões, ele precisa mostrar algo relevante sobre o funcionamento da área ou da empresa.
Durante o episódio, Roberto Staudacher propõe uma pergunta que ajuda a organizar esse raciocínio:
“Quais são os indicadores de sobrevivência da sua área ou da sua empresa? Quais são aqueles indicadores que a gente precisa olhar todos os dias para saber se vai chegar ao final do mês, do semestre ou do ano?”.
A pergunta é simples, mas costuma revelar uma dificuldade comum. Muitas empresas acompanham números, embora nem sempre saibam explicar como eles foram calculados, quem apura a informação e qual processo está por trás daquele resultado.
Quando isso acontece, o indicador perde parte da sua força. Um número pode parecer positivo no painel, mas esconder falhas de operação, atrasos ou critérios de apuração que mudam de uma área para outra. Por isso, a gestão por processos precisa caminhar junto com o acompanhamento dos indicadores.
Antes de tomar uma decisão com base em um dado, a empresa precisa entender de onde ele vem. Também precisa saber se esse dado representa a realidade da rotina ou apenas uma leitura parcial do processo.
Um dos sinais de que os processos precisam ser revistos aparece quando a equipe passa boa parte do tempo resolvendo o mesmo problema. A urgência até pode dar a impressão de produtividade, porque todos estão ocupados, mas a causa permanece ali, esperando o próximo desvio.
No episódio, os convidados usam a imagem do “bombeiro corporativo” para falar desse comportamento. O gestor apaga incêndios, resolve demandas que surgem ao longo do dia e termina a jornada cansado, embora aquilo que deveria ter sido planejado continue sem avançar.
Essa situação não deve ser tratada apenas como falha individual. Em muitos casos, ela mostra que o processo está instável, que os papéis não estão claros ou que a empresa se acostumou a conviver com o retrabalho.
Quando o mesmo problema volta a aparecer, a pergunta principal deixa de ser “quem errou?” e passa a ser “por que o processo permite que isso se repita?”. Essa mudança de olhar é importante porque tira a gestão do campo da reação e leva a discussão para a causa.
A gestão por processos utiliza métodos que ajudam a organizar a análise e a melhoria da rotina. No episódio, três ferramentas aparecem com destaque: PDCA, SDCA e SIPOC. Cada uma contribui em um momento diferente, dependendo do nível de maturidade do processo e do tipo de problema que precisa ser resolvido.
PDCA é a sigla para Plan, Do, Check and Act, que pode ser traduzida como planejar, executar, verificar e agir. Trata-se de um ciclo usado para conduzir melhorias, partindo de um plano, testando a solução, avaliando o resultado e fazendo os ajustes necessários.
Em uma empresa que enfrenta atrasos recorrentes na entrega, por exemplo, o PDCA pode ajudar a investigar a causa, testar uma mudança no fluxo e verificar se o prazo melhorou de fato. O ponto central é que a melhoria seja acompanhada, e não apenas implantada por impulso.
Apesar de ser bastante conhecido, o PDCA nem sempre é bem aplicado. Em algumas empresas, ele aparece como uma sequência de ações rápidas, sem investigação suficiente da causa. Nesse caso, a ferramenta perde parte do sentido, porque o ciclo passa a registrar tentativas de solução em vez de orientar uma análise.
Quando bem conduzido, o PDCA ajuda a empresa a agir com método. Ele cria uma lógica de aprendizado, na qual a melhoria depende de planejamento, acompanhamento e correção.
SDCA é a sigla para Standardize, Do, Check and Act, ou padronizar, executar, verificar e agir. Enquanto o PDCA está mais associado à melhoria, o SDCA ajuda a manter a rotina estável depois que um padrão foi definido.
Gilson Souza chama atenção para esse ponto no podcast:
“O PDCA é fundamental para melhorias incrementais, mas normalmente as organizações falham quando não há uma estabilização do processo, o SDCA”.
A fala mostra que tentar melhorar um processo instável pode gerar um ciclo de avanço e queda. A empresa faz uma força-tarefa, melhora o resultado por um tempo e, depois, vê o problema voltar. Sem padronização, a melhoria não se mantém na rotina.
Um atendimento que muda conforme a pessoa que está no turno, por exemplo, pode até melhorar depois de uma ação pontual. Porém, se o padrão não for registrado, treinado e acompanhado, a equipe tende a voltar ao modo anterior.
SIPOC é a sigla para Suppliers, Inputs, Process, Outputs and Customers. Traduzindo, a ferramenta ajuda a visualizar fornecedores, entradas, processos, saídas e clientes. O objetivo é mostrar a cadeia de funcionamento de uma atividade.
Em um processo de compras, por exemplo, o SIPOC pode mostrar de onde vem a solicitação, quais informações precisam estar completas, quem executa a compra, qual entrega será feita e quem depende dela para continuar o trabalho.
Ao montar essa visão, o gestor percebe que a operação costuma ter mais etapas do que parecia à primeira vista. Com isso, problemas que estavam escondidos começam a aparecer. Um atraso pode não estar na etapa final, mas em uma entrada mal definida ou em uma informação que chega incompleta.
Nem todo problema exige a mesma ferramenta. Algumas situações permitem ganhos rápidos, principalmente quando o desvio é claro e a solução pode ser testada com segurança. Esses avanços iniciais, chamados de quick wins (vitórias rápidas) ajudam a equipe a perceber que a melhoria é possível e abrem espaço para mudanças mais estruturadas.
Imagine uma área que perde tempo porque os pedidos chegam por canais diferentes e sem as mesmas informações. Nesse caso, uma mudança simples no formulário de solicitação pode reduzir dúvidas e evitar retrabalho. A solução é pontual, mas já melhora a rotina.
A situação muda quando o problema envolve causas menos evidentes. Se uma empresa enfrenta perdas recorrentes em uma operação, com impacto financeiro relevante e dados divergentes entre áreas, a solução exige uma investigação mais profunda.
É nesse contexto que Roberto Staudacher apresenta o DMAIC como uma metodologia mais robusta. DMAIC é a sigla para Define, Measure, Analyze, Improve and Control, que corresponde a definir, medir, analisar, melhorar e controlar. O método, usado dentro da lógica Lean Six Sigma, ajuda a tratar problemas complexos com mais disciplina.
A diferença está no grau de profundidade. Quando um problema custa caro para a empresa, a solução precisa ser conduzida por pessoas que tenham tempo, autoridade e respaldo para investigar a causa até o fim. Esse apoio da liderança é importante porque uma análise mais completa pode atravessar áreas, questionar hábitos antigos e exigir decisões que a equipe, sozinha, nem sempre consegue tomar.
Caso contrário, a organização pode investir energia em uma causa aparente, enquanto a origem do desvio continua ativa.
A gestão por processos depende de dados confiáveis. Sem isso, a empresa pode discutir o problema durante horas sem chegar a uma decisão segura, já que cada área parte de uma leitura diferente da realidade.
Esse ponto também aparece em estudos recentes sobre transformação digital. O Índice de Transformação Digital Brasil 2025, da PwC, aponta que governança e estrutura de dados estão entre as principais oportunidades de melhoria para o desenvolvimento de uma cultura baseada em dados. O relatório também relaciona essa evolução à necessidade de transformar informação em valor estratégico.
Na rotina das empresas, esse desafio aparece quando uma área calcula um indicador de uma forma e outra área usa um critério diferente para acompanhar o mesmo tema. A reunião, então, deixa de discutir o processo e passa a discutir qual número está correto.
Por isso, mapear processos também envolve alinhar a forma como a informação circula. A empresa precisa definir critérios, responsáveis e fontes de dados para que a decisão seja tomada a partir de uma base comum.
Esse cuidado se torna ainda mais necessário quando a organização começa a usar automação, inteligência artificial ou análise avançada. Isso porque dados frágeis podem gerar respostas rápidas, mas pouco confiáveis.
A transformação digital aparece no episódio como uma realidade presente. Porém, a tecnologia aplicada sobre um processo mal compreendido pode apenas acelerar o erro.
Digitalizar uma atividade não significa, por si só, melhorar a operação. Antes de escolher uma ferramenta, a empresa precisa entender qual problema deseja resolver, qual processo será impactado e qual indicador mostrará se houve avanço.
Uma empresa pode implantar um sistema para aprovar solicitações internas, por exemplo. Se o fluxo anterior não foi revisto, a ferramenta talvez apenas transporte para o ambiente digital as mesmas etapas confusas que já existiam no papel. A aprovação fica on-line, mas o processo continua lento.
A transformação digital funciona melhor quando nasce de uma necessidade bem definida. A tecnologia ajuda porque o processo foi observado, o risco foi compreendido e a meta é relevante para o negócio.
Portanto, a pergunta inicial não deveria ser “qual ferramenta vamos usar?”, mas “qual processo precisa ser melhorado e por quê?”. A partir dessa resposta, a empresa consegue decidir com mais clareza.
Método sem adesão vira documento. Para que a gestão por processos funcione, as pessoas precisam entender o problema, participar da solução e perceber que a mudança tem sentido para a rotina.
Esse ponto é decisivo porque os processos não existem fora da rotina. Eles passam por pessoas que executam, observam falhas, lidam com exceções e sabem onde a operação costuma travar. Quando esse conhecimento é ignorado, a mudança tende a ficar distante do dia a dia.
Por isso, a melhoria de processos também depende da forma como a liderança conduz a mudança. Uma nova rotina precisa ser explicada, testada e acompanhada, para que a equipe compreenda o motivo da alteração e consiga aplicá-la no trabalho.
Gilson Souza relaciona esse tema ao aprendizado aplicado. Ao falar sobre a pós-graduação, ele resume essa conexão em uma frase: “Aquilo que eu aprendo hoje, eu aplico amanhã na minha atividade de rotina”.
Essa ideia é importante para quem atua com processos e performance. O conhecimento precisa chegar à prática, ajudando o profissional a transformar método em decisão de gestão.
Na FAE Business School, a Pós-graduação em Gestão por Processos e da Qualidade trabalha o mapeamento e a modelagem de processos como base para compreender e otimizar o fluxo de valor nas organizações. O curso também conecta cultura organizacional, processos de mudança, metodologias ágeis, Lean Thinking e Six Sigma, preparando profissionais para atuar em melhorias de processos de negócio.
Já a Pós-graduação em Supply Chain Management aprofunda o uso de Business Analytics, Lean Thinking e Gestão de Sistemas da Qualidade, aproximando esses conhecimentos dos desafios da cadeia de suprimentos. A proposta inclui a aplicação de estratégias e ferramentas de mercado em desafios reais, o que dialoga diretamente com a necessidade de unir método, dados e tomada de decisão.
Profissionais que atuam com operações, qualidade, logística, supply chain, melhoria contínua ou gestão lidam com problemas que raramente têm uma única causa. Muitas vezes, o desafio envolve método, dados, tecnologia e comportamento organizacional.
A pós-graduação cria espaço para estudar essas relações com mais profundidade. Em sala, o profissional pode revisitar conceitos clássicos, discutir casos reais e compreender como diferentes ferramentas se aplicam a diferentes níveis de complexidade.
Esse aprendizado é importante porque o mercado exige decisões cada vez mais rápidas, embora os problemas nem sempre sejam simples. Sem preparo, o gestor pode escolher uma solução conhecida apenas porque já usou antes. Com uma base mais ampla, ele tende a analisar melhor o contexto antes de agir.
Na área de operações e supply chain, essa capacidade se torna ainda mais relevante. Processos atravessam áreas, dependem de informação confiável e impactam diretamente o resultado do negócio. Por isso, o profissional que entende a lógica dos processos consegue dialogar melhor com a estratégia da empresa.
A gestão por processos ajuda empresas a entenderem onde estão, aonde querem chegar e quais indicadores mostram se o caminho está funcionando. Em mercados voláteis, essa clareza faz diferença, porque a empresa não controla todas as mudanças externas, mas pode melhorar a forma como lê sua própria operação.
Ao acompanhar processos e indicadores, a liderança consegue perceber desvios antes que eles se tornem problemas maiores. Com isso, a correção de rota passa a fazer parte da rotina, em vez de aparecer apenas quando a urgência já tomou conta.
Essa foi uma das mensagens finais de Gilson Souza no episódio. Para ele, é importante saber aonde se quer chegar, acompanhar os indicadores de progresso e fazer as correções necessárias ao longo do caminho.
Em um ambiente de mudança, a gestão por processos deixa de ser apenas uma ferramenta operacional. Ela passa a orientar decisões que afetam a rotina, a performance e o futuro do negócio.
Para aprofundar o tema, assista ao episódio 8 do podcast Conexão Pós, da Pós-graduação FAE, com Roberto Staudacher, Gilson Souza e mediação de Alexandre Iwankio.