
As tendências do mercado de trabalho para os próximos anos
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06/08/2026 | 10 min de leitura
O ambiente corporativo passa por uma transformação profunda, na qual a gestão da saúde mental no trabalho deixou de ser uma iniciativa secundária de RH para se consolidar como uma pauta estratégica de sobrevivência operacional. Em um cenário marcado pelo aumento dos casos de burnout e por mudanças regulatórias, entender o impacto do bem-estar emocional tornou-se indispensável para quem busca sustentar a retenção de talentos e a produtividade nas organizações.
Fique por dentro do assunto com este artigo baseado no episódio 9 do podcast Conexão Pós FAE, mediado por Alexandre Iwankio, diretor da Pós-graduação da FAE. O encontro reuniu Edgar Pereira Junior, coordenador da Pós-graduação em Psicologia e Saúde Mental do Trabalho da FAE, e Antonio Amaral, executivo da Unimed PR e psicólogo.
Ao longo do debate, os especialistas analisaram os gargalos na gestão do bem-estar, as novas exigências legais da NR-1 e a urgência de preparar profissionais da psicologia com visão sistêmica para atuar na linha de frente do mercado.
A saúde mental no trabalho é uma condição de bem-estar e equilíbrio emocional que possibilita a realização plena das funções laborais por parte do colaborador. No podcast Conexão Pós, Edgar Pereira Júnior relata que muitos associam a discussão de saúde mental diretamente com burnout, mas reforça que o tema não se resume ao adoecimento, pois é muito mais amplo e envolve toda a cultura organizacional da empresa.
O avanço contínuo da tecnologia, da inteligência artificial e da conectividade em tempo integral transformou a dinâmica das empresas, gerando ganhos substanciais de produtividade. Por outro lado, trouxe exigências psicológicas sem precedentes.
No podcast, Antonio Amaral faz uma reflexão de alerta para as empresas sobre o tema, argumentando que se criou uma expectativa de o humano processar informações na mesma velocidade dos sistemas e, por conta disso, existe uma crescente cobrança por produtividade que pode levar ao adoecimento do trabalhador.
A partir disso, o executivo ressalta que o fator humano deve ser valorizado. “A única coisa que a inteligência artificial não vai substituir é o humano. Toda a capacidade de entrega ela pode substituir. Agora, o olhar humano, as emoções humanas, o aspecto humano, não vai. Então, precisamos tomar cuidado para não sacrificar o aspecto humano, nesse processo de transição”.
A urgência das discussões sobre saúde mental no trabalho foi impulsionada pela evolução das evidências científicas, pela pressão social e pela própria transformação das relações trabalhistas.
Se no início dos anos 2000 o tema era pouco investigado até pela academia, a ampliação dos estudos permitiu traduzir dados em práticas de gestão efetivas. Edgar Pereira Junior ilustra essa mudança ao relembrar que “o número de publicações que tínhamos no início dos anos 2000 era baixíssimo nas revistas científicas de psicologia”.
Esse avanço teórico reflete-se diretamente na urgência observada no ambiente corporativo. Segundo o Relatório GPTW - Tendências em Gestão de Pessoas 2026, a síndrome de burnout consolida-se como a 2.ª maior causa de afastamento por motivos de saúde mental nas empresas, somando 19,9% dos casos.
Somado a isso, o aumento de 39,2% nos pedidos de demissão evidencia que a perda de talentos valiosos está intrinsecamente ligada à ausência de lideranças capacitadas e à falta de perspectiva de crescimento.
Nesse cenário de alerta, a atualização da NR-1 surge como uma aceleradora fundamental desse debate, regulamentando as diretrizes de saúde mental no trabalho e exigindo que as organizações estruturem ambientes mais seguros e sustentáveis.
A NR-1 é a Norma Reguladora do Ministério do Trabalho que define as regras de segurança corporativa. Sua atualização trouxe uma mudança significativa para a saúde mental no trabalho. Agora, a norma aborda que estresse, sobrecarga e clima organizacional nocivo passam a compor o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO). Com isso, a saúde mental no trabalho deixa de ser um tema opcional e passa a ser uma exigência legal e estratégica para qualquer organização.
O principal impacto da norma é a mudança de postura que ela exige das organizações: a gestão da saúde mental no trabalho deixa de ser uma iniciativa pontual de RH para se consolidar como uma prioridade estratégica de negócios.
Conforme pontuado por Pereira Júnior no podcast, a norma não deve ser encarada como um gatilho isolado, mas sim como um acelerador de processos que já vinham sendo cobrados pela sociedade.
O especialista explicou que a atualização da diretriz surgiu para responder às demandas da sociedade, atuando não apenas para contabilizar episódios de adoecimento, mas para avaliar como a estrutura de trabalho pode estar impulsionando esses quadros.
Negligenciar a saúde mental no ambiente corporativo não é apenas uma falha de gestão, é um risco direto à perenidade do negócio. Quando uma organização ignora o bem-estar da sua equipe, ela compromete os fatores mais valiosos para a sustentabilidade da marca: performance, inovação e capacidade de retenção.
Uma cultura organizacional que não promove o bem-estar do colaborador pode acarretar diversos problemas, sendo os principais:
Perda de performance e engajamento: profissionais submetidos a estresse crônico perdem a capacidade de concentração, criatividade e decisão estratégica. Afinal, por mais brilhante que seja um talento, sem engajamento não há entrega de excelência.
Aumento do turnover e do absenteísmo: o crescimento nos pedidos de demissão voluntária e o afastamento por licenças médicas.
Passivos trabalhistas e riscos legais: o descumprimento das exigências da NR-1 expõe a empresa a autuações, fiscalizações rigorosas e ações judiciais motivadas por burnout e até assédio moral.
Danos à marca empregadora: companhias com ambientes tóxicos perdem a atratividade no mercado, enfrentando sérias dificuldades para atrair e reter os melhores profissionais.
Na avaliação de Antonio Amaral, a grande virada de chave para as organizações está em compreender que o investimento no bem-estar emocional reflete diretamente na sustentabilidade e nos resultados do negócio. O especialista sintetiza essa mudança ao afirmar que “usar dinheiro com o colaborador não é despesa, é investimento” e reforça que essa postura precisa se consolidar o quanto antes, pois “é isso que vai trazer engajamento e é isso que vai trazer resultado”. Por fim, para o executivo, um profissional pode ser tecnicamente impecável, mas “se ele não estiver engajado, a estratégia do negócio não vai gerar resultado”.
Na discussão sobre como estruturar um ambiente positivo de saúde mental no trabalho, Antonio Amaral destacou a mudança de paradigma no perfil profissional valorizado pelo mercado corporativo. O executivo defende que a antiga visão de resiliência — que exigia suportar pressões em silêncio — deu lugar à capacidade de reconhecer limites com segurança e solicitar apoio. Para o especialista, promover a saúde emocional exige dar voz ao colaborador para que ele sinalize quando o limite foi ultrapassado.
Além disso, a análise sobre o desgaste emocional precisa ir além do volume de entregas diárias. Amaral reforça que, às vezes, o trabalhador acredita que o adoecimento emocional no ambiente de trabalho está necessariamente ligado ao excesso de trabalho, “mas às vezes não é isso”, exclamou. O executivo explica que o problema muitas vezes deriva da falta de espaço, de escuta e de um ecossistema integrativo no qual o profissional se sinta realmente acolhido. Por isso, encarar os processos de produção e a cultura corporativa de modo sistêmico é indispensável para prevenir quadros de sofrimento psíquico.
O estilo de gestão, a clareza na distribuição de metas e a capacidade de escuta dos gestores influenciam diretamente o nível de estresse da operação.
Contudo, os próprios líderes frequentemente enfrentam pressões intensas por resultados, acumulando a cobrança da alta gestão com a responsabilidade de acolher suas equipes. Por essa razão, a construção de um ambiente saudável exige que os gestores também recebam o suporte necessário para exercer um papel mais humano e transparente.
No podcast, Amaral ressaltou a importância de desconstruir o mito do líder super-herói infalível. O executivo observou que os líderes também necessitam de respaldo e acolhimento e que uma gestão próxima, vulnerável e pautada na transparência é fundamental para estabelecer conexões autênticas com os liderados.
A saúde mental no trabalho tornou-se um vetor indispensável para a eficiência operacional, a atração de talentos e o crescimento sustentável das organizações. Profissionais qualificados para conduzir essa agenda com visão estratégica e domínio prático destacam-se na linha de frente do mercado.
Portanto, para aprofundar suas reflexões e conferir o debate completo sobre cultura organizacional e a nova regulamentação da NR-1, assista ao episódio 9 do podcast Conexão Pós.
Embora a busca por ambientes saudáveis seja uma tendência, existe uma lacuna de formação no mercado. A graduação na área possui um viés amplo e nem sempre consegue aprofundar em conhecimentos específicos para a interseção entre saúde mental, legislação trabalhista e mundo corporativo.
Edgar Pereira argumenta que, além do conhecimento teórico e prático da psicologia organizacional, o profissional precisa ter a visão sistêmica do ambiente de trabalho para conseguir implementar ações efetivas que promovam a saúde mental. O coordenador mencionou que o especialista precisa compreender as nuances corporativas, saber olhar para dados a fim de pensar em estratégias assertivas e até negociar com os decisores para implementar as ações, por exemplo.
É diante dessa demanda que a FAE estruturou a especialização em Psicologia e Saúde Mental do Trabalho, visando formar profissionais preparados para desenhar, implementar e gerenciar estratégias de bem-estar nas organizações.
Se o seu objetivo é dominar as novas exigências regulatórias e liderar essa transformação nas empresas, conheça a especialização em Psicologia e Saúde Mental do Trabalho da FAE e confira a estrutura do curso.